Quarto capítulo: Questão de diretas ou indiretas

1 out 2018

Vamos começar a semana com mais um capítulo do livro “Lutas e frustrações ecológicas. Um desafio”? Escrito pelo renomado João José Bigarella, fundador da Associação em 1974, o livro reúne alguns artigos de sua história e luta pelo meio ambiente no estado do Paraná, especialmente o seu olhar cuidadoso e todos seus esforços pela Serra do Mar.

O artigo de hoje é “Questões de diretas ou indiretas”, de 15 de março de 1984.

Boa leitura!

Capitulo Quarto: Questão de diretas ou indiretas

A promessa governamental de que a Serra do Mar, isto é, o Parque Marumbi, seria intocável não aconteceu…!

A Adea constatou novos desmatamentos dentro do perímetro do “caduco” parque, bem como recebeu denúncias de que o IBDF concedeu permissão para desmatamento nas proximidades dos mananciais de água de Antonina.

Na problemática serrana o que seria mais viável, uma solução “direta”? Ou, uma abordagem “indireta” da questão?

Confrontam-se os dois opostos…

Vejamos:

De um lado o Governo Federal (IBDF) que age na base das cousas “indiretas”, fruto das “indiretas”! De outro lado, o governo do Paraná, fruto das “diretas”, também não “diretamente” interessado no magno problema do binômio Serra do Mar – Porto de Paranaguá!

É de conhecimento público e notório que o IBDF é um órgão federal irresponsável e nefasto dos interesses do Paraná, sem qualquer preocupação com o futuro sombrio de nosso Estado.

Por que apenas a Adea luta sozinha contra o status quo gerado pelo IBDF?

Não seria isso uma obrigação “direta” das bancadas paranaenses na Câmara ou no Senado em Brasília?

Por que elas estão eternamente ausentes?

Aparentemente, para os parlamentares o problema do Porto de Paranaguá não tem qualquer interesse próprio “direto”. Assim sendo, é melhor ser “indiretamente” conivente com a atuação do IBDF!

A diferença da atuação entre a minúscula Adea e o pomposo Parlamento, é que a primeira não necessita de “votos eleitoreiros” para lutar arduamente no interesse do Estado.

Em todo o caso, na voz do povo (vox Populi, vox |Dei) as cousas andam como estão e o IBDF é o que é, somente porque segue caminhos “indiretos” …

Se o IBDF é indireto e, esta a razão primordial de sua inoperância, então devemos depositar o máximo de confiança e ter esperança na ação “direta” do governo do Paraná, apesar de inúmeros senões… Um deles: desinteresse no combate ao assoreamento da Baía de Paranaguá!

Em outras palavras: o governo do Paraná, “diretamente” não está fazendo nada de concreto, na procura de dispositivos jurídico-legais que disciplinem o uso do solo na Serra do Mar, a fim de evitar a perda desastrosa do Porto de Paranaguá e do corredor de exportação.

Haja visto, a caducidade do Parque Marumbi, desfazendo a verde esperança do povo paranaense…!

Não podemos dizer que o governo esteja agindo por ignorância ou falta de consciência do problema. Nem que esteja atuando de má fé, protegendo os interesses dos portos de Santos ou de São Francisco do Sul, que muito lucrariam com a desativação do Porto de Paranaguá!…

Ele tem sido seguidamente alertado a propósito da gravidade da questão, não apenas pela Adea, mas por muitos especialistas nacionais e estrangeiros, os quais em simpósios ou, em numerosas reuniões interdisciplinares, debateram o assunto. Mas…

Como resultado “direto” vimos caducar, talvez uma das maiores aspirações da comunidade paranaense, o Parque Marumbi!

Estamos vendo o IBDF “indiretamente” devorar impunemente as florestas da Serra do Mar, acabando com os “passarinhos, poetas e ecologistas”, sem que o Estado “diretamente” se preocupe a opor-se a essa atitude vil e peçonhenta!!!

Insistimos.

A falta de interesse das bancadas do Paraná em Brasília é fato notório.

Para elas não faz diferença alguma se o Porto de Paranaguá é uma função “direta ou indireta” da floresta da Serra do Mar!

Por que o governo e os parlamentares omitem-se a propósito da floresta pluvial tropical serrana e da manutenção do Porto de Paranaguá?

Gente! Tudo tem um limite…

O problema é sério mesmo! Além de alarmante.

Tenhamos um pouco de espírito paranista!

Não estamos sós. Vozes de fora vem a nosso favor.

O professor Robert M. Norris do Departamento de Geologia da Universidade da Califórnia (Santa Bárbara, Estados Unidos), preocupado com a destruição da floresta da Serra do Mar, enviou ofícios ao governador do Estado do Paraná e aos Ministros do Interior e da Agricultura, enfatizando a grande importância de preservar o ecossistema serrano.

Em 1982, o professor Norris teve a oportunidade de atravessar a Serra do Mar, durante tempestade de chuvas intensas. Como geólogo, ele concluiu de imediato, que as vertentes íngremes da serra permaneciam no lugar, somente devido a floresta protetora. Além de seu valor como “ecossistema único”, as florestas protegem os divisores de água, bem como diminuem os perigos das enchentes na planície costeira.

O professor Norris salienta ser bem conhecida dos geólogos, a grande intensidade das chuvas no Brasil, bem como a frequência dos deslizamentos destrutivos (quedas de barreiras), principalmente ao Sul do Rio de Janeiro.

As destruições de bens públicos e privados pelas enchentes e desmoramentos são por demais grandes nas regiões costeiras do Brasil Meridional e certamente serão maiores se o governo permitir a destruição extensiva das florestas. Os prejuízos irão certamente exceder o valor comercial da madeira.

As ponderações do professor Norris são muito objetivas e certas. Lembramos aqui, que o lucro auferido com a devastação das serras da Bacia do Itajaí totalizou 90 bilhões de cruzeiros (valor atualizado) quando os prejuízos das cheias de julho de 1983 foram de 500 bilhões de cruzeiros!

Pergunta-se:

Vale a pena desmatar?

Vale a pena condenar o Porto de Paranaguá?

Sob hipótese alguma a Adea tolera a negligência “direta ou indireta” das latas autoridades e delas exige providencias imediatas que sustem a devastação imbecil da Serra do Mar!

 

(Jornal Gazeta do Povo, 15 de março de 1984)

 

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