Mutucas

28 nov 2018

Por Werney Serafini

A mutuca ou butuca (Chrysops) é um bichinho alado, do tamanho de uma mosca grande. Irrequieto e persistente é ávido por sangue, inclusive o humano, que coleta através de uma ferroada ardida, semelhante a um beliscão doído. Isso sem falar da coceira e do inchaço que fica depois.

Aparece não se sabe como e nem de onde, no final de Outubro. Intensamente no mês de Novembro para depois desaparecer, tal como surgiu, em Dezembro, no dia da Santa Luzia, segundo crença popular.

Há tempo observo essa criatura infernal que atazana a vida da gente e some, supostamente, no dia da linda santa protetora dos olhos.

André de Meijer, naturalista holandês que vive há 30 anos em Antonina, litoral do Paraná, dá as dicas sobre esse incomodo personagem.

Ensina que, na época das mutucas, para caminhar na mata, não se deve esquecer o chapéu. Não só para proteção do sol, mas, também, das mutucas. E não deve ser boné, pois elas vêm na cabeça e descem até as orelhas.

Não aparecem no outono e no inverno. Surgem no final de Outubro e aos poucos. Primeiro uma pequena que ataca o alto da cabeça. Depois outra, maior e, na sequência, a maioria das espécies até atingirem o ápice em Novembro. Segundo ele, 28 espécies de 16 gêneros ocorrem em toda a planície litorânea.

Os machos não perturbam, pois preferem o néctar e o pólen das flores. São as fêmeas que sugam humanos e outros mamíferos, porque após copularem, precisam de proteína animal para a maturação dos ovos.

São seletivas na escolha das plantas para depositarem seus ovos. Acredita-se que preferem as folhas do araçá (Psidium cattleianum). O naturalista esclarece que os ovos são depositados em camadas nas folhagens, galhos e também na vegetação aquática, acima da água ou da terra umedecida. Sobrevivem em ambientes úmidos e com muita matéria orgânica.

Localizam as vítimas, geralmente mamíferos e raramente aves, quando estes, em movimento, exalam dióxido de carbono, um atrativo poderoso percebido pelo olfato das mutucas. Percebe-se ao caminhar nas trilhas que, ao parar, elas vão se acalmando. Mas, nem por isso ficam quietas e, sob alta luminosidade e elevada temperatura, importunam do nascer do sol ao escurecer. E não adianta prevenir, pois não há repelentes que as afastem. À noite sossegam, felizmente.

As cores escuras as atraem mais do que às claras. Nos dias ensolarados e quentes levam a loucura bovinos, equinos e cães, principalmente os de pelagem escura e lisa. Os búfalos em Antonina, para se protegerem buscam refúgio nas lagoas lamacentas, pois a lama, ao ressecar, deixa o corpo mais claro com uma camada de argila cinza. Mesmo assim não se livram do martírio, pois elas concentram o ataque nas orelhas, que mantém em constante movimento para espantá-las.

Seus predadores naturais são algumas vespas que parasitam seus ovos e larvas que por sua vez são consumidas pela garça-vaqueira (Bubulcis íbis) e pelo conhecido quero-quero (Vanellus chilensis).

Nas áreas urbanas não são muitas, talvez por existirem poucos animais de grande porte, os seus preferidos. Pode ser, mas em Itapoá estão presentes, pois aqui, até na beira do mar uma ou outra cumpre a sua sina sanguinária.

Interessante é a analogia com a Santa Luzia. Meijer, conta que ao observar com lente de aumento os olhos da mutuca, teve uma revelação surpreendente. Indeiscentes e verdes resplendem uma cor azul-violetado deslumbrante. Talvez seja essa a razão dos católicos do litoral atribuírem o seu desaparecimento em 13 de dezembro, na festa de Luzia, a santa protetora dos olhos.

Caso o leitor, seja devoto de São Tomé e queira ver para crer, sugiro um passeio, sem guia é claro, nas trilhas da Reserva Volta Velha. Certamente, uma experiencia inesquecível.

 

Itapoá (primavera) novembro de 2018.

 

 

 

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