Leitura para reviver o passado e instigar o futuro

28 jun 2018

Reler artigos é reviver histórias. É isso que o livro “Lutas e frustrações ecológicas. Um desafio”, nos propõem: reviver um pouco da história da ADEA.

Escrito pelo renomado João José Bigarella, fundador da Associação em 1974, o livro reúne alguns artigos de sua história e luta pelo meio ambiente no estado do Paraná, especialmente o seu olhar cuidadoso e todos seus esforços pela Serra do Mar.

Como Luciano Pizzatto traz logo nas primeiras páginas da obra: “A leitura dos artigos publicados pelo Dr. Bigarella, muitas vezes nos levam a discordar em tese de algumas posições, mas jamais, deixar de compreender a elevação e importância da sua mensagem”.

E é dessa forma, para não deixar morrer as mensagens e esforços desse grande homem que iniciamos uma nova série de publicações. A cada semana um artigo será publicado na íntegra. Mais do que reviver a história e homenagear o professor Bigarella, as publicações buscam instigar o pensamento crítico sobre todas as lutas que a ADEA já esteve presente e instigar novas que ainda virão.

Boa leitura!

Serra do Mar – O começo do fim

Por João José Bigarella

 

Capítulo Primeiro: Antonina

 Convidado a proferir palestra para alunos e autoridades do Município de Antonina, a propósito dos problemas da Serra do Mar, encontramos o auditório do colégio totalmente lotado com mais de 350 escolares, muitos deles de pé. Entretanto, as cadeiras reservadas às autoridades estavam vazias, com exceção de uma ou outra. A palestra, realizada na noite de 09/11/1983, na realidade tornou-se uma conferencia dado o grande interesse demonstrado pela juventude ávida de ensinamentos sobre o meio ambiente.

Os jovens estão preocupados com a ecologia, enquanto que os poderes Legislativo e Executivo não demonstram o menor interesse pelos problemas ambientais. O que se verifica na prática, por parte das autoridades e políticos, é um modismo pela ecologia, apenas da “boca para fora”. Existe igualmente, por parte de alguns “politiqueiros”, um interesse em manobrar associações conservacionistas em proveito próprio, principalmente nas vésperas de eleições. Também, de nada adianta o “blá-blá-blá” das associações ecológicas se não existir respaldo técnico que venha solidificar as campanhas de defesa do meio ambiente.

A população de Antonina está preocupada com a desativação do porto homônimo. Disseram-nos, durante nossa última visita, que a lama está assoreando a olhos vistos a baía e a área portuária. Contudo, esta informação não nos surpreendeu…

Já dissemos e escrevemos, há mais de uma década, que o desmatamento dos terrenos acidentados da região litorânea inutilizaria as instalações portuárias do Paraná. Aparentemente não fomos ouvidos e agora a própria população começa a confirmar as nossas funestas previsões! Mas…

Apesar do que está acontecendo, ainda existe uma distância considerável para que os administradores se conscientizem do problema!

Mesmo que as autoridades constituídas se interessassem pelo assunto e, politicamente, tramitassem os anseios e aspirações ambientalistas do povo, esbarrariam na muralha insensível do IBDF. Mas nem isto fazem o tentam!

Np Paraná, a ADEA quase que sozinha vem lutando ferrenhamente e, quem sabe se não quixotescamente, em prol de um Estado, cujo governo é pico sensível ao problema ambiental, apesar das inúmeras promessas fáceis de fazer e quase impossíveis de cumprir.

Ao criticarmos o IBDF, é bom que fique bem claro que o fazemos à filosofia do órgão e não das pessoas que lá são transitórias. Inclusive, que podemos dizer que dentro do IBDF temos grandes aliados, que embora não possam manifestar-se livremente, não se conformam com a orientação que lhes é imposta!

Recebemos denúncias de pessoa credenciada de que os mananciais de água de Antonina sofreram recentes desmatamentos que colocam em risco o futuro abastecimento urbano.

Onde está a fiscalização do Estado?

Duvidamos também, se é válida a proposição do governo, em eximir-se de maiores responsabilidades, dizendo que os parques devem conviver com os ocupantes da área, à semelhança de outros parques nacionais!

Não queremos ser derrotistas ou radicais, mas somos realistas. Sabemos muito bem, que este tipo de convivência acabou com muitos parques e está acabando com o pouco que resta!

A proteção da Serra do Mar depende de um dispositivo jurídico legal, que o poder público tem faculdade de impor. Precisamos de um decreto-lei dois mil e tanto que seja aprovado e imposto a semelhança de outros. É só querer! E por que o governo não o quer? O IBDF que o diga…

Para este órgão federal não existe – absolutamente – qualquer problema florestal no Paraná. Ele considera e vangloria-se que o Estado possui mais de 18% de recobrimento florestal. Que bom se o fosse! Mas o que acontece ´r que o IBDF é incapaz aparentemente, de diferenciar entre capoeira e floresta! É preciso que se estabeleça uma distinção entre mata primitiva, tiguera e capoeira. Ecologicamente, elas representam ecossistemas altamente diferenciados e, por favor, inconfundíveis entre si!

Lamentavelmente, este órgão do governo federal está sempre do lado e mesmo defende o interesse de grupos imediatistas, muitas vezes gananciosos e destituídos de quaisquer princípios ecológico e de brasilidade.

O Paraná está colhendo os primeiros frutos da atividade verdadeiramente criminosa do desmatamento dos terrenos montanhosos da fachada atlântica paranaense, com a desativação do porto de Antonina, que está se tornando antieconômico pelo assoreamento causado pelo desmatamento.

Já dissemos isto, há mais de dez anos, com base em estudos geológicos de detalhe, e o IBDF não pode ignorar tal fato, pois a ADEA surgiu do Movimento de Educação Ambiental – MEA, que fazia suas reuniões dentro da Delegacia Regional do órgão em Curitiba.

Será que o problema de Antonina não é capaz de sensibilizar nem o governo federal e nem mesmo o estadual?

De uma vez por todas, moral e civicamente os governos têm o dever de defender seriamente o sistema portuário do Estado, cuja operacionalidade depende da manutenção da floresta da Serra do Mar!

O assoreamento está aí, bem visível para quem quiser ver. Entretanto, os nossos homens públicos, em sua maioria praticamente sem instrução ecológica, são incapazes de conceber que o problema portuário esteja ligado ao desmatamento!

A ecologia não vive de promessas, mas de efetiva participação do poder público na solução dos problemas ambientais.

Já ficaram no passado histórico, os dias em que os navios atracavam em Antonina!

Que a gravíssima lição de Antonina sirva para que não aconteça o mesmo ao Porto de Paranaguá.

Assim o esperamos!… embora duvidemos que o governo venha a tomar qualquer providencia concreta a respeito de tão magno problema… antes que seja demasiadamente tarde! Torna-se necessário uma ação imediata e objetiva do governo.

 

(Jornal Gazeta do Povo, 22 de novembro de 1983).

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