A luta de vida e morte por trás do canto das cigarras

23 jan 2014

Por Marcos Rodrigues

Adulto da cigarra gigante (Quesada gigas)

Adulto da cigarra gigante (Quesada gigas)

Nestas noites quentes e úmidas que prenunciam o verão, ‘a insônia me convence que o céu faz tudo ficar infinito’. É quando percorro meu jardim na tentativa de observar um dos grandes espetáculos do planeta, munido apenas por uma pequena lanterna made in china.

Sob um céu comandado por Vênus procuro por buracos na superfície da terra nua, perfeitamente redondos, com cerca de um centímetro de diâmetro. Nestes dias após o equinócio da primavera, as primeiras chuvas umedecem o solo que estava seco e o aumento da temperatura despertam as ninfas das cigarras que estavam vivendo dentro da terra, em estado quase letárgico, a sugar a seiva das raízes das árvores.

Essas ninfas, de carapaça dura, ou, como preferem os entomólogos, de exoesqueleto duro, cavam túneis que as levam à superfície. Esses pequenos buracos são a saída final para um mundo completamente novo a ser descoberto. No entanto, as ninfas só saem à noite, quando seus predadores dormem sobre os galhos daquelas mesmas árvores. É aí que começa o espetáculo.

As ninfas se deslocam lentamente, como velhos tanques de guerra aposentados da primeira guerra, e com o auxílio de poderosas pernas anteriores, repletas de espinhos, sobem a primeira superfície vertical que encontram, seja o tronco de uma árvore, seja uma parede bem rebocada. Após uma longa, lenta e cansativa escalada de alguns centímetros, às vezes até dois metros, as ninfas param. Ficam ali, penduradas ao léu, estáticas. Pouco a pouco, e magicamente, uma fenda aparece ao longo das costas da ninfa, e por ali vai emergindo o indivíduo adulto. Primeiro surge à cabeça com os enormes olhos que brilham a luz da minha pobre lanterna. Depois parece que o corpo mole do adulto escorrega vagarosamente pelo exoesqueleto até liberar as pernas. Finalmente, já fora da carapaça, mas agarrado a ela, as asas começam a inflar até se formarem completamente.

Todo esse processo pode durar horas, e é chamado de metamorfose incompleta, que é o termo que se usa quando a ninfa é muito parecida ao adulto, mas sem asas e sem órgãos reprodutivos maduros. Isso é diferente da conhecida metamorfose completa típica das borboletas, quando existe uma forma larval e um estágio de pupa, totalmente diferentes do adulto. Lá está a cigarra adulta, sob o mesmo céu escuro iluminado por Vênus.

Mas é durante o alvorecer do dia, e quando o sol está a pino e também na boca da noite que sentimos a presença destes adultos. Em todo o centro sul-sudeste do Brasil, nos meses de dias quentes de outubro e novembro, os machos das cigarras adultas emitem seus vigorosos e, para alguns, estridentes, cantos nupciais. Geralmente, a espécie que associamos a este canto é a cigarra-gigante (Quesada gigas), mas na realidade, existem muitas espécies de cigarras e cada uma com seu canto característico. Esse canto é feito por um par de estruturas abdominais chamadas tímbales, que é uma placa estriada situada em uma membrana. Internamente a essa estrutura há um saco aéreo traqueal que funciona como uma câmara de ressonância.

O som de algumas destas espécies pode atingir até 120 decibéis, o que já é classificado na faixa de som ensurdecedor. Para termos uma ideia, é comparável ao barulho do decolar de um avião de grande porte. O ruído de um trânsito de carros numa avenida movimentada chega a 80 decibéis.

Mas o som destas cigarras não é privilégio das regiões tropicais. Na região do Mediterrâneo, milhões destes seres surgem nos meses de verão boreal, junho, julho e agosto. Lá costumam cantar nas horas mais quentes do dia, e o canto é tão alto que a maioria das espécies de aves se cala durante estas horas. É que o canto daquelas cigarras simplesmente as ensurdece. Este fenômeno é chamado de mascaramento, ou seja, quando um som se sobrepõe a todos os outros. Imagine-se num ambiente fechado com o show de uma banda muito barulhenta. Lá dentro, o som ambiente simplesmente impede a comunicação entre as pessoas. Lá dentro, você tem que gritar para ser ouvido. No caso do Mediterrâneo, as aves não se engajam nesta atividade que demanda muita energia, o grito, e, portanto, simplesmente se calam.

Na verdade os machos das cigarras têm pouco tempo de vida. Na fase de ninfa elas podem viver anos, às vezes 2, às vezes 17 anos debaixo da terra, numa vida que consiste em apenas sugar a seiva das raízes que a cercam. Mas quando chega a hora de se transformar num adulto, tudo muda. Na fase adulta ela tem a oportunidade de voar, cruzar os céus, enfrentar a liberdade da vida em todo o seu fulgor. Mas nada é de graça. Essa vida dura não mais do que um singelo mês. Além disso, há perigos por toda parte, e o maior deles são os predadores. Entre estes, as aves são os mais vorazes.

No meu jardim, a época das cigarras é também a época em que ocorre a visita de várias espécies de aves que ali encontram fartura alimentar. Primeiro surge um bando de anus-brancos (Guira guira). Quem conhece esta espécie sabe do seu ímpeto predatório. A começar pela sua face de olhos grandes, quase voltados para frente (na maioria das aves os olhos estão posicionados na lateral da cabeça) e um topete de penas na cabeça que nos remete a uma grande águia predadora. Os anus-brancos vivem em famílias comunitárias, de vida social complexa, onde há líderes e liderados. Eles chegam ao meu jardim num grupo que varia de 8 a 12 indivíduos. Muito barulhentos e espalhafatosos, pousam sobre o solo um ao lado do outro e começam a fazer uma varredura. Enquanto andam em zigue-zague, procuram sua presa ativamente. Insetos e lagartos se afugentam inutilmente frente ao exército de anus, e claro, eventuais ninfas de cigarras que estejam saindo dos seus túneis subterrâneos na hora imprópria. É por isso que a maioria das ninfas só sai à noite.

Os anus-brancos também conseguem capturar cigarras adultas que descansam sobre os troncos e galhos de árvores, embora de maneira não muito eficiente, pois anus não são bons voadores. Mas é aí que entram as almas-de-gato (Piaya cayana), coincidentemente um parente próximo do anu-branco, ambos pertencendo à mesma família, Cuculidae. As almas-de-gato também não são grandes voadoras, mas correm pelos galhos com exímia facilidade. Aparecem e desaparecem na ramagem como um fantasma. Por isso talvez o nome alma-de-gato. Não há cigarra que seja páreo para estas aves. Elas as capturam como capturamos amoras negras e suculentas, da maneira mais fácil e aprazível.

Há dezenas, talvez centenas de aves que se aproveitam deste festim proporcionado pelas cigarras adultas. Bem-te-vis comuns (Pitangus sulphuratus), bem-te-vis rajados (Myiodnastes maculatus) e bem-te-vis de bico largo (Megarhyncus pitangua) se refestelam sobre os galhos horizontais com suas presas agarradas ao bico. Eles costumam retirar apenas a parte mais polpuda do ‘fruto’ batendo o corpo da cigarra contra um galho e assim retirando suas asas, provavelmente indigestas. O João-de-barro (Furnarius rufus) e até mesmo a pequena cambaxirra (Troglodytes musculus) aproveitam pedaços suculentos ainda presentes nestas cabeças de cigarras ceifadas e desprezadas pelos bem-te-vis. O choró-boi (Taraba major) é outra ave visitante ocasional do meu jardim, que costuma frequentá-lo exatamente na época das vacas gordas, ou melhor, das cigarras adultas. Até mesmo pequenos gaviões como o carrapateiro (Milvago chichima) aparecem ocasionalmente para caçar cigarras adultas. Há relatos de outros pequenos gaviões que acabam se especializando na caça de cigarras durante está época, como o gavião-sovi (Ictinia plumbea) e o suveiro-do-norte (Ictinia mississippiensis).

O pouco tempo de vida das cigarras adultas faz com que elas tenham que agir rápida e assertivamente. Precisam atrair uma fêmea o mais rápido possível, antes que um desses predadores vorazes a transformem em refeição. Assim, cantam o mais alto possível durante o máximo de tempo possível. É um jogo perigoso, mas inexorável. Além de tentar atrair uma parceira, os pobres machos precisam ficar em constante estado de alerta. Não há estresse maior do que esse.

Esopo e La Fontaine colocam as cigarras injustamente como insetos preguiçosos. Na agricultura, a cigarra é considerada uma praga, seja porque as ninfas diminuem o fluxo de seiva nas raízes, seja porque aumentam a inoculação de potenciais patógenos à planta, ou porque os adultos necessitam danificar as folhas ou galhos finos para depositar seus ovos. Agora, os cidadãos urbanos pedem a cabeça das cigarras por serem barulhentas e irritantes. Não é fácil ser uma cigarra. Mas o que seria da vida destas belas aves predadoras que tanto queremos preservar e tanto queremos que continuem gorjeando sobre nossas palmeiras se essas criaturas tão estranhas, e para alguns irritantes, fossem eliminadas?

Volto ao jardim. O céu azul pálido sustenta gordas nuvens de barriga magenta no final do crepúsculo, e aos poucos os troncos e as folhas se tingem de negro, restando-lhes apenas as silhuetas e uma atmosfera surrealista. Vênus aparece solitário e brilhante, dando início a mais uma noite quente de verão. As cigarras estão a pleno vapor gritando loucamente pelas amadas, futuras mães de sua prole.

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